Friday, November 09, 2007

Sobre a Graça, as Garças e sobre Nós.

Nem a verdade das aves condiz com um belo eterno

Nossa liberdade. Livres consentidos, livres convencidos. Com ou sem sentidos.
Sentimos muito e estamos em perigo. Poucas casas muitos abrigos.
E falam os outros de esperança.

Que dança.
Paletar por esconderijo.
Esconda-me a boca.
Te beijo
Com meu favo
Com meu passo
Comeu falo, como eu falo, como eu mixo.

Revoar de esplanadas.
Sorrir ao novo nascer do sol é brilhar diante de tanto Vermelho.
Colorimos com rúbio a cor das árvores.
Esquecemos-nos de que caem secas e neutras as suas folhas.

Pra onde vai toda a garra e gana?
Onde se recicla, de onde se manda?
Cadê a conta.

Sombras.

Ascende um cigarro ao moço.
No momento, não posso fumar
Mas alegro-me que o façam por mim.
Somos.

Deveras somos. Deveríamos e não somos. Devemos porque somos. Sonos. E sons de esgoto.
Cochichar de boatos.
A minha boate é de vidro fosco.
Entram e saem valadares. Nem sabem do hoster e do gosto.

Do gozo.

Vestibular. Prostíbulo de poço. Posso. Mostro. Tortos.

Prefiro voar com as aves.
Nem que seja de pipa ou de avião.
Porque sonhar, no mais, é de menos.

Sonhar acordado é pra quem tem almofadas.

Nada. Nem fadas.
Ascenderei eu também o pigarro. Falso. Farra. Falácia.
Que demora.

Me liga em boa hora.
Me desliga agora.
Sou. Somos. Pra fora.

Parar não é preciso para a tosa.
Colares e formosas.
Chamem as cadelas.

Somos as garças do início.
Não temos pêlos.
Mas temos penas.

Somos pássaros.

Não aprendemos a voar.

Tuesday, September 18, 2007

Rob3erto



Roberto vive numa redoma de soslaio.
Não sabe ele das dores do amanhã nem dos presentes do passado.
Vive Roberto num harém despropositado.
Tantas mulheres, meu deus, pra quê trabalho.

E Roberto vê-se sufocado. São mulheres amigas, mães, tias, putas e empaladas.
Roberto já comeu muito e está enjoado. Mas gosta da fruta, não é viado.
E Roberto já está falado. Anda e volta e as mesmas mulheres do lado.
Onde está Roberto? Roberto está atarefado.

E Roberto é pop. É estrela. É malvado. É anjo e prostituta.
Falam muito dele, bem e errado.
Roberto tenta se concentrar na labuta. Mas não foge de um telefonema fim de sábado.
Roberto sabe que tem de mudar. Tem de mudar-se. Ele muda a cada manhã, mas busca a mesma casa sob o escuro pano de estrelas no céu sátiro.

Roberto é belo, pêlos e beijos pertos.
Às vezes queria sumir pelo eterno. Sente-se feio quando tem em si a insegurança de quem grande perde os pés. Mas anda cansando-se essa coisa de ser bonito.
Roberto outro dia decidiu: quer sua beleza só para si.

Roberto olha-se no espelho. Pôr-do-sol viradeiro.
Roberto põe-se em si mesmo. É um terno eclipse, não há luz perspectivas para fora de seu círculo. Medo. Coração sobreposto, escondido. Uma vez já lhe conquistaram. Mas isto é mesmo um perigo.
Roberto vive rico como um mendigo.

Roberto sabe e os outros dele sabem. Digo, as outras. Mas, diz Roberto: não me importam os outros! Mentira.
Roberto é porque os outros lhe dão a eficácia de ser e não ser.

Roberto já perdeu muito; já ganhou vagabundo.
Mas tem medo de sair de casa, por vezes. É que as mulheres são borboletas espalhadas neste campo de centeio.
Já pegou todas. E sente-se sufocado pelas flores em cujas borboletas semeou o mais ingênuo mel.
Descobriu, outro dia, Roberto, que é diabético.
E onde estão os médicos? Digo, as médicas?

Não há causa para tamanho ponto.
Roberto é um fim em si mesmo.

Monday, August 27, 2007

Nós

Seu corpo encravado no meu
É símbolo da cruz e da glória

Sua pele em contato com a minha
Se resolve nos poros e se encontra na língua

Esse suave enlace
De um crime que me parte
Sou vítima de nosso desate
E os lençóis testemunhas covardes...

O trem invade
Cruza fronteiras e montes, chega à Marte
O mundo gira e gira o teto e giram as fases
A luz pisca pois aqui o sol nasce...

Deitar num rosário...
Estirar-se num banho trepido, lânguido despertar de desejos
Se for eu, se for você, ser o mesmo
Gozar não tira pedaços...

E os espelhos e os retalhos
Encontro-nos num avesso de inventário
Inventemos nossa sorte
Encontramos nosso armário

Sair das espreitas para a boa vida relicário
Cada artigo sobre a mesa faz calvário
Nenhuma dor suplanta esse sorrir de ousado

Mil, dez, suor culpado
Esquecer-se das angústias é o primeiro passo
E então não há contas, só resultados imediatos
Amar é esquecer-se de quando não somos amados.

Sedento esse bálsamo
Mergulhar em moças e Mários
As Marias costuram minha cueca e meu talo.

Por fim, ser todo num campo vasto
Levar-me ao vento nas alturas de um máximo
Desfazer-se num pólen doce por gotículas de orvalho.
Semear o doce mel das abelhas com um só zangão e atalho.

Depois da janta, beber de gargalo.
O néctar da juventude jorra dos matos.

Comer desse fruto não é pecado.

Monday, July 09, 2007

Sobre os cegos e o vagão

Vago pelo mundo
E tento achar o trem cujo bilhete carrego
Descobrir a música que sem querer danço
E saber de onde vêm os pingos e os raios
Que caem do céu

Quero poder achar a fonte do arco-íris
E ver na íris do outro o moço ver de esperança
Fazer crescer a criança
E embalar em doces beijos meus avós e montes

Vago pelo mundo
Catando recortes
Fazendo recordes. De uma notícia vindoura
Pulando de passo a passo pelas coisas
Desviando-me de cacos e de moças

Vago pelo mundo
Procurando além do oceano terra velha
Quero povoar meu coração com promessas
Mais novas que adão, cobra e Eva

Procuro minha Igreja
Balizo em mim meus pecadores
Arranjo hóstias para comer
E nas horas vagas brinco de santo

Vagas as horas em que vago pelo mundo
Vagabundo o vagão que me deixou sem rumo
Rumino neste e noutro surdo
As notícias que, vistosas, nos fazem o mais voluntário dos cegos.

Vagamos pelo mundo.
De óculos escuros.

Wednesday, June 27, 2007

Dias


Ai que essa idade me come as estribeiras
Me mata a beira da cama
Traz passados enterrados
E não resolve esse futuro vindouro

Futuro teimoso
Nunca chega
Aguardo, como uma noiva paciente
Pádua e clemente. Não há sinais de mudança neste quadro.

E passam os minutos... as horas... calvário.
O tilintar de copos distantes, essa pantomima cediça e honrosa.
Tic Tac, os ponteiros me apontam a um nada.
Beira de abismo. Estrada.

Doem os queixos afundados na almofada.

Que fazer amanhã ou mesmo hoje?
Tantas tarefas, poucos monges.
Rezar para quem e para onde?
Onde buscar, o que buscar e, qual mesmo seu nome?

Ai que ta me dando um sono.
Voltarei a dormir.
E quem sabe não me embale nalgum sonho.
Que não me abale e que me desentale deste dia insosso.

Quero acordar com um diário.
Um mapa na cabeceira.
Uns beijos no pescoço.
E uma rota a ser traçada, todos os dias.

Sonhar para não perder o sono.
Acordar para dormir com planos.

Vamos?

Sunday, June 24, 2007

Qual a razão?


Qual a razão para certas coisas que vagam pelo mundo perdidas sem rumo
E para as crianças desabrigadas? Qual a razão?
Para os ditadores, o sofrimento e a opulência, qual a razão?

Qual o motivo e a motivação?
Para mães sem os filhos
Para os tiros, para a falta de pão

Qual a ponte para os amigos sentidos
Para os ex-namorados e os inimigos
E para os desafetos irmãos

Qual a cura para os loucos, desvalidos
Os em coma e os comidos
Qual a razão para os crápulas, os falsetes e os bandidos?

Qual a razão para a tortura. Tontura. Covardia. Lamúria.
Qual a razão para o pouco e o sedento. O ópio e o virulento.
Tapumes de seda para feridas que jamais fecharão.

Qual a razão.

Para o cuspe, para quebra, a bancarrota e a megera
Para o inferno e as quimeras
Para os pesadelos desta e de outras eras.

(...)

Neste texto jaz espaço em branco.
Solenes anotações.
Descontentes e desesperançosas.

Friday, May 11, 2007

Por falar em falta de tempo...

Fico contente em ser perguntado por amigos se não iria postar de novo. Pessoas que embora não comentem no blog, acompanham tudo o que escrevo. Isso é estimulante. Vai aqui um texto que fiz tem umas três semanas, e que gostei bastante.

Saudades.

Tento

Tempo
Esse amante proibido
Da boca céu salina tempos de outrora, tempos de vida
Tempos para a mãe sadia
E para o filho vida uterina

Tempo para o mundo
E cem mundos para o mesmo tempo
Cegos andantes aqueles sem tempo
Sábios pedantes os com todo tempo do mundo

Tempo sempre lento
É o mesmo tempo dicotômico, sedento
Vento que arrasta esse tempo num assobio de gaita e violão

Eita, saber dos nãos
Olhar da casca polpa os minutos vagão
Esse trem, trampo tempo, tanto tempo, tarde tão...

O tempo mexe nos conceitos
Faz cair os peitos e os narizes e os queixos e as bocas
Faz da água sangue de vinho, dá nó em pingos d’água
Por cargas d’água vontade divino

Tempo, tempo sabido
Cronometra sua vida, pequeno
Arranja um tempo pra te dar carinho.

Pouco e muito são os tempos do caminho
Para o mesmo tempo, tantos caminhos
Para o mesmo mar... só um destino

Eita tempo que traga furiosamente com traças, essas ondas no mar
Puxa com tanta força essa moça perdida no altar
Esposa ela com todas as agonias, e coisas da vida no mais nobre Parar
Tempo para que te quero, ainda que não te queira, um dia contigo irei casar.

Um, dois, três.
Do quatro só Deus sabe.