Sobre os cegos e o vagão
Vago pelo mundo
E tento achar o trem cujo bilhete carrego
Descobrir a música que sem querer danço
E saber de onde vêm os pingos e os raios
Que caem do céu
Quero poder achar a fonte do arco-íris
E ver na íris do outro o moço ver de esperança
Fazer crescer a criança
E embalar em doces beijos meus avós e montes
Vago pelo mundo
Catando recortes
Fazendo recordes. De uma notícia vindoura
Pulando de passo a passo pelas coisas
Desviando-me de cacos e de moças
Vago pelo mundo
Procurando além do oceano terra velha
Quero povoar meu coração com promessas
Mais novas que adão, cobra e Eva
Procuro minha Igreja
Balizo em mim meus pecadores
Arranjo hóstias para comer
E nas horas vagas brinco de santo
Vagas as horas em que vago pelo mundo
Vagabundo o vagão que me deixou sem rumo
Rumino neste e noutro surdo
As notícias que, vistosas, nos fazem o mais voluntário dos cegos.
Vagamos pelo mundo.
De óculos escuros.
